Investimento totalmente sem risco não existe! Mas o maior risco certamente é escolher a aplicação errada
Não existe investimento sem risco. Mesmo. O risco de um investimento pode ser remoto, mas não inexistente.
Se você já ouviu falar de algum investimento com risco zero, corra porque deve ser cilada. Isso simplesmente não é verdade e pode ser um argumento usado para te atrair para maus investimentos e até para golpes.
O que você precisa saber ao investir é que existem diferentes tipos de risco, em diferentes intensidades. Há aplicações de baixíssimo risco e outras de risco alto. O risco também pode variar de acordo com o seu objetivo.
Em resumo, não existe aplicação sem riscos, mas existe aplicação errada. É importante não só entender os riscos a que você está exposto em cada investimento como também se esses riscos são adequados aos seus objetivos.
Um exemplo: ao comprar um título público com rentabilidade atrelada à inflação, você terá a garantia de ganhar uma rentabilidade já conhecida acima do índice de preços definido, em geral, o IPCA. O risco de tomar um calote é mínimo, pois se trata de um título com garantia do governo.
Entretanto, se você o vender antes do vencimento – e você pode fazê-lo quando quiser – o risco de perder dinheiro é bem real, por causa das características desse título. E aí? É baixo risco ou alto risco? Depende do objetivo. Se sua intenção é ficar com o papel até o vencimento, é baixo risco. Se não, é alto.
Outro bom exemplo é o investimento em aplicações com baixo risco de perdas e baixa liquidez. Você provavelmente não vai perder dinheiro, mas também não poderá resgatá-lo quando quiser. E dependendo do seu objetivo, isso pode ser um grande problema.
Você pode estar pensando “nossa, não quero correr risco de jeito nenhum. Se é assim, vou ficar na poupança mesmo ou guardar o dinheiro embaixo do colchão”.
Se isso passou pela sua cabeça, lamento informar, mas essas opções também têm risco. Na poupança, você corre o risco de o banco quebrar, e só tem seu dinheiro garantido até um limite de 250 mil reais, que é a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Entenda melhor o funcionamento do FGC.
Não existe investimento sem risco
Guardando dinheiro em casa, você corre um risco óbvio e que não deve ser ignorado: o risco físico. Roubo, perda, danificação das notas, acidentes e até o risco de as cédulas perderem valor diante, por exemplo, de uma mudança de moeda.
Em ambas as situações, suas reservas podem também perder poder de compra. A rentabilidade da poupança tem tido dificuldade de vencer as altas taxas de inflação no Brasil, e o dinheiro vivo não conta sequer com um rendimento modesto para tentar repor ao menos parte da alta de preços.
Ou seja, se você consegue poupar dinheiro, a melhor alternativa é se informar para fazer a melhor escolha. O consultor financeiro Mauro Calil, fundador da Academia do Dinheiro, compara o risco de investir ao risco de atravessar a rua.
“Atravessar a rua sempre tem risco. Mas para uma criança de três anos, que não sabe como bem atravessar, o risco é maior do que para um adulto. Se a criança estiver com pressa e desatenta correndo atrás de uma bola, o risco aumenta”, diz.
Ele acrescenta ainda que para não correr o risco de ser atropelado, não basta simplesmente não atravessar a rua. “Até na calçada você pode acabar sendo atingido por um maluco”, diz Calil, que defende que a informação é uma arma poderosa para o investidor reduzir seus riscos.
Conheça, então, os principais tipos de risco a que os investimentos estão sujeitos, e atente para eles na hora de escolher um produto financeiro. Lembre-se que uma mesma aplicação financeira pode estar sujeita a mais de um tipo de risco.
Riscos sistêmicos
Os riscos sistêmicos são os riscos da economia como um todo, que podem comprometer o mercado ou o sistema financeiro em geral. É o caso, por exemplo, de uma crise econômica mundial.
Riscos não sistêmicos
Os riscos não sistêmicos são mais específicos de cada tipo de investimento, e podem ser de diversas naturezas, como as seguintes:
Risco de mercado
É o risco de oscilação (volatilidade) de preços e taxas, como a variação dos preços das ações e dos títulos públicos, o sobe e desce do câmbio e das taxas de juros.
É bastante claro para a maioria dos investidores, mesmo iniciantes, que os preços das ações das empresas e do dólar oscilam bastante.
Mas não é tão óbvio, por exemplo, que os preços dos títulos públicos também oscilam, e que isso pode ter grande impacto no resultado final do investidor.
Principalmente no caso dos títulos prefixados e daqueles que têm remuneração atrelada à inflação, a variação dos preços pode ser intensa, e se dá em função da variação da taxa básica de juros.
Como a venda dos títulos públicos é sempre feita a preço de mercado, se o preço do título na hora da venda estiver menor do que o preço pelo qual você comprou o papel, você terá perdas no seu investimento.
Já se você ficar com o título até o vencimento, você vai ganhar exatamente a rentabilidade acordada na hora da compra. Portanto, atenção ao investir no Tesouro Direto.
Risco de crédito ou risco de calote
Risco de a instituição financeira emissora de um título de dívida não pagar o que deve ao investidor.
Esse risco está presente nas aplicações de renda fixa, por meio das quais o investidor empresta dinheiro para o emissor do título, como os CDBs (emitidos por bancos), debêntures (emitidas por empresas) e títulos públicos (emitidos pelo governo federal). Esse é também o risco da caderneta de poupança.
No caso dos títulos públicos, o risco de crédito é o menor da nossa economia, devido à garantia do governo federal. É muito difícil o governo dar um calote na sua dívida interna, e se isso chegar a ocorrer, provavelmente toda a economia estará um caos, com calotes de bancos e empresas também.
Debêntures emitidas por empresas grandes e sólidas tendem a ter risco menor que debêntures emitidas por empresas menores e complicadas, principalmente se a empresa grande em questão for uma estatal.
O mesmo vale para a poupança e os papéis emitidos por bancos. Os bancos grandes tendem a ser menos arriscados que os médios.
No geral, porém, boa parte das aplicações bancárias conta com a cobertura do FGC para aplicações de até 250 mil reais por CPF, por instituição financeira. Se o banco for público, o risco de crédito é ainda menor, uma vez que o risco, em última análise, equivale ao do governo federal.
Assim, as aplicações de renda fixa bancárias tendem a ter risco de calote menor do que as debêntures, por exemplo, uma vez que estas não contam com cobertura do FGC.
Risco de liquidez
Liquidez é a facilidade de resgatar uma aplicação financeira. Investimentos com liquidez imediata são aqueles em que você consegue ter acesso ao dinheiro no mesmo dia em que pede o resgate, como ocorre na caderneta de poupança e em fundos de investimento conservadores.
Alguns investimentos, no entanto, têm baixa liquidez. Em alguns deles, como certos tipos de fundos, pode levar dias ou até meses entre a data do seu pedido de resgate e a data do depósito do dinheiro na sua conta.
Há títulos de renda fixa que não permitem resgate antecipado, devendo ser levados até o vencimento. Existem também títulos e fundos com carência, isto é, que só permitem o resgate depois de determinado prazo.
Mesmo quando o ativo precisa ser vendido para outro investidor pode haver baixa liquidez. É o que ocorre com ações, cotas de fundos imobiliários e debêntures pouco negociadas.
Simplesmente pode levar dias até o investidor encontrar um comprador interessado. E até lá, o investimento pode se desvalorizar.
Mas talvez os investimentos de baixa liquidez mais conhecidos pelos brasileiros sejam os imóveis. Uma venda de imóvel pode levar meses para ocorrer. Quantas vezes você já passou por aquela plaquinha de “vende-se” em um imóvel perto da sua casa, anunciado há um tempão?
Outros tipos de risco
Há ainda outros tipos de risco, como o risco operacional – de o sistema de negociação sair do ar, por exemplo –, o risco regulatório – de o governo baixar um decreto que mude as regras de um setor –, o risco de concentração em poucos ativos, quando perdas em um único investimento podem causar um grande baque no seu patrimônio, entre outros.
Uma observação sobre os fundos de investimento
Se você investe por meio de fundos de investimento, você estará exposto ao risco das aplicações financeiras que compuserem a carteira de investimentos do fundo. Assim, se o fundo investir em ações, haverá risco de mercado, e se investir em títulos públicos, haverá risco de mercado e risco de calote.
Além disso, certos fundos podem ter um risco de liquidez considerável, não permitindo aos cotistas o resgate imediato dos recursos. É bom sempre se informar sobre isso antes de investir, para evitar surpresas desagradáveis.
Todos os tipos de risco a que os fundos estão expostos estão esmiuçados no prospecto, numa seção voltada especificamente para isso.
Lembrando que fundos têm CNPJ próprio, não estando expostos ao risco das instituições financeiras que os gerem ou administram. Em caso de quebra de uma delas, basta escolher outra instituição para desempenhar aquele papel.
Investimento inadequado é um grande risco
Mas então, como lidar com os riscos dos investimentos? Antes de mais nada, você precisa se conhecer enquanto investidor: sua tolerância a risco e seu lado emocional têm um papel fundamental na escolha dos melhores produtos financeiros.
“Se a pessoa sabe que é conservadora e não tem tolerância a perdas, não adianta ficar lendo o jornal em busca de uma oportunidade em alguma ação. Muita gente se diz conservadora, mas fica chateada ao ver que deixou passar o que considera uma boa oportunidade”, diz Janser Rojo, planejador financeiro certificado (CFP) da QI Financeiro Consultoria.
Em segundo lugar, você precisa ter objetivos bem definidos e escolher os investimentos mais adequados, em risco, rentabilidade e liquidez.
Pode ser desastroso, por exemplo, investir em ações ou fundos de ações se você tem uma data marcada, dentro de poucos anos, para usar o dinheiro. E pode ser muito difícil se aposentar com tranquilidade se você apenas investir na poupança durante toda a sua vida.
“Existe uma grande diferença entre uma pessoa que quer trocar de carro em dois anos e outra que quer se casar daqui a dois anos. A primeira pode adiar um pouco a compra do carro se algo der errado. A segunda não, porque ela pode acabar é perdendo o noivo”, exemplifica Mauro Calil.
Em terceiro lugar, você deve, para certos objetivos e volumes de dinheiro, diversificar a carteira, justamente para reduzir seus riscos. Uma carteira bem diversificada faz com que perdas em uma determinada aplicação tenham pouca relevância para o todo do seu patrimônio.
“O investidor precisa definir até quanto ele pode perder, quanto ele está investindo em cada ativo e se uma eventual perda vai quebrá-lo. É uma pequena parte do patrimônio ou é a poupança de uma vida inteira o que ele quer investir?”, diz Calil.
Finalmente, você deve procurar se informar sobre os riscos de cada aplicação que escolher e conhecê-los bem. Assim, pode se sentir mais seguro e ter noção das suas opções caso algo dê errado.
Rojo lembra que quem escolhe o investimento errado para seu perfil ou objetivo pode ter perdas e acabar traumatizado. “A pessoa passa a ter medo, fica chateada, e acaba não aproveitando as boas oportunidades mais adequadas a ela por causa de uma única experiência ruim”, diz.
Se os resultados dos seus investimentos começarem a ficar abaixo das suas expectativas, é hora de reavaliar: seus objetivos são irreais? Investimentos similares de outras instituições estão indo melhor que o seu? Seu desempenho está superior ou inferior ao índice de mercado que baliza aquele investimento, o chamado benchmark?
“Sempre haverá alguém se saindo melhor que você. Se seu desempenho estiver acima do benchmark, melhor não mexer. Agora, se estiver sistematicamente abaixo, talvez seja melhor reavaliar”, diz Calil
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